Mitos

O conhecimento acerca do TDA/H tem sido cercado de idéias falsas, desprovidas de embasamento científico. É espantoso como ainda hoje alguns médicos não possuem informação adequada sobre o assunto, e, o que é pior, disseminam informações inadequadas (mitos).

A Ciência, na sua busca pelo conhecimento da natureza, faz exigência de alguns critérios e usa de rigor para assegurar que um determinado acontecimento é uma verdade científica. Nem por isso pode-se pensar que as afirmações cientificas são definitivas. Elas são provisórias, pois evoluem na medida que nossos instrumentos e métodos de observação também se desenvolvem e que os fenômenos observados também se transformam.

Importante lembrar que, diante de um fato isolado observado, não devemos apressadamente inferir que o fato antecedente gerou o fato posterior até que várias repetições do fenômeno em circunstâncias idênticas tenham se repetido, e que se possa estabelecer um vínculo lógico entre os acontecimentos em jogo. Outra exigência da Ciência é que, sempre que possível, o fenômeno possa ser repetido em laboratório.

Veja também o artigo Entendendo a literatura científica.

Vamos examinar em seguida algumas falsas crenças que as pessoas têm mantido em relação ao TDA/H.

Mito 1. O TDA/H é um distúrbio fantasma, não existe. Na verdade criaram uma boa desculpa para pais e professores justificarem suas dificuldades de educar e de colocar limites a certas crianças mais difíceis que as outras.

Veja a Declaração de Consenso assinada por 80 experientes profissionais sustentando que o TDA/H é um transtorno legítimo.

Preocupadas com o crescente número de diagnósticos de TDA/H, autoridades de saúde nos EUA nomearam uma comissão de experts na área de saude mental para examinar o assunto. A conclusão foi publicada em 1998 no Jornal da Associação Médica Americana e diz assim: ” ADHD is one of the best-researched disorders in medicine, and the overall data on its validity are far more compelling than for many medical conditions” .

O transtorno tem sido descrito tanto na cultura ocidental quanto na oriental.

Os estudos com gêmeos e com crianças adotadas mostram que o papel predominante é do fator hereditário, cabendo ao ambiente uma participação menos expressiva na gênese do problema.

Mito 2. As crianças com TDA/H não são diferentes das demais. Nenhuma criança consegue ficar quieta ou prestar atenção por muito tempo seguido.

É verdade que a capacidade de controle da atividade motora, dos impulsos e da capacidade de concentração variam de pessoa a pessoa e que só gradativamente essas capacidades vão se desenvolvendo no período da infância.

A diferença entre uma criança com TDA/H e outra talvez não possa ser bem percebida na hora do recreio, quando é de se esperar que todas estejam correndo, pulando ou gritando. Porém, ao soar a campainha do fim do recreio, quando todos retornam à sala de aula, aí podemos observar que uma determinada criança sistematicamente não consegue parar, e nas aulas é constantemente incapaz de sustentar a atenção, desviando sua atenção para outros estímulos com a maior facilidade.

Realmente a diferença é quantitativa e não qualitativa. Quer dizer, tudo que uma criança com TDA/H mostra no seu comportamento as demais também apresentam, só que naquela de uma forma mais intensa, freqüente e mal adaptada à situação.

Mito 3. O TDA/H é um transtorno muito mais freqüente no sexo masculino.

Durante muitos anos o componente da hiperatividade foi considerado o fato mais importante nesse transtorno e, como os meninos costumam apresentar mais hiperatividade que as meninas, acreditou-se que esse problema seria bem mais comum no sexo masculino.

Em 1980 (DSM-III) a denominação utilizada passou a ser Distúrbio do Déficit de Atenção. Com essa mudança as dificuldades de atenção destronaram a hiperatividade. O que ficou evidente é que nas meninas o tipo clínico que cursa sem hiperatividade (Tipo Predominantemente Desatento) é mais comum. Por essa razão, por ser menos ruidoso, esse tipo pode passar mais tempo sem ser identificado, ou ser facilmente confundido com outras condições, como depressão, deficiência intelectual leve, etc.

Mito 4. Os sintomas de TDA/H geralmente desaparecem espontaneamente no final da adolescência.

Era exatamente isso que se pensava enquanto o fator hiperatividade era o mais importante no quadro clínico, pois existe uma tendência de a hiperatividade declinar com o passar dos anos, ao passo que os sintomas de desatenção tendem a persistir.

Na verdade nem sempre a hiperatividade desaparece, ela apenas evolui de acordo com a idade. Por exemplo, uma criança hiperativa pula sem parar, trepa nos armários da casa, corre de um lado para outro. Quando essa mesma pessoa chega à idade adulta não é de se esperar que ela continue com o mesmo comportamento, mas podemos ver que ela está sempre andando de um lado para outro, faz tudo como se estivesse com muita pressa, não consegue deixar as mãos paradas, no mínimo está tamborilando na mesa de trabalho.

Mito 5. Se uma criança com TDA/H consegue fazer com muita atenção uma atividade do seu interesse (videogame) e não consegue fazer os deveres escolares, a razão para isso parece ser uma falta de vontade ou motivação.

Na verdade o termo “déficit de atenção” não descreve fielmente o que ocorre e provavelmente será substituído no futuro, pois o que ocorre com essas pessoas é uma inconstância ou má-regulação da atenção. Existe um prejuízo na capacidade de a pessoa dirigir sua própria atenção, ou seja, uma dificuldade na atenção voluntária.

Muitas dizem que tentam, se esforçam para ler, estudar, mas não conseguem. É claro que depois de algum tempo essas pessoas vão de antemão evitar ou desistir antes mesmo de iniciarem essas tarefas tão penosas para elas.

Mito 6. Os medicamentos usados no tratamento do TDA/H, notadamente os estimulantes, provocam efeitos colaterais sérios e podem causar dependência.

A maioria dos especialistas com experiência no acompanhamento de pessoas com TDA/H afirmam que o metilfenidato é um medicamento eficaz e seguro. É evidente que qualquer medicamento pode produzir efeitos adversos, e o metilfenidato não foge a essa regra. Deve ser administrado por profissional com experiência no seu manejo. Via de regra, os efeitos indesejáveis são discretos e limitados às primeiras semanas de tratamento.

Usado por via oral, e por uma pessoa que apresenta o TDA/H, o estimulante não provoca dependência.

Mito 7. O uso do estimulante pode predispor a criança se tornar um dependente de outras drogas no futuro.

Estudos já foram realizados acompanhando-se crianças que tinham feito uso de estimulantes (metilfenidato e outras substâncias), e comparando esse primeiro grupo com outro grupo de crianças que, por qualquer razão, não tinham feito tratamento para TDA/H. O resultado é que a ocorrência de abuso de drogas na juventude revelou-se maior ou idêntico no grupo não tratado, o que mostra que o tratamento com estimulantes na verdade não é capaz de induzir o abuso de drogas.

Mito 8. Apresentar TDA/H na infância traz poucas conseqüências para a vida da pessoa e por isso não se justifica um tratamento nessa idade.

Alguns casos de TDA/H menos intensos, quando acompanhados de alto nível intelectual e ambiente familiar bem estruturado, podem passar pela vida sem que o transtorno cause grandes prejuízos no seu funcionamento.

Todavia, na maior parte dos casos, o TDA/H compromete seguramente o funcionamento da pessoa, e sem dúvida ela seria capaz de desenvolver melhor seu potencial se não fosse o TDA/H.

Prejuízos na auto-estima, rendimento escolar e profissional abaixo da real capacidade, conflitos com colegas e cônjuges, maior morbidade, tendência maior a ter múltiplos casamentos, gestações indesejadas, abuso de álcool e drogas, são algumas das possíveis conseqüências que o TDA/H traz para a vida das pessoas.

Sam Goldstein, experiente psicólogo norte-americano, afirma que “o risco de não tratar é certamente maior que o risco do tratamento”.