O papel da família – parte 2

Sabe-se que a maneira de perceber os traços componentes do TDA/H é bastante diversa não só pela própria pessoa afetada como também pelos seus familiares.

Quando se trata de crianças, é comum que os pais muitas vezes pensem que o problema se deve a um “defeito de caráter”, uma espécie de variante anormal, sobre o qual o pequeno paciente tem inteira responsabilidade. Evidentemente essa atitude gera sentimentos de raiva e rejeição mais ou menos consciente em relação à criança.

Outra forma possível de enxergar o problema é atribuir a si mesmos, os pais, a inteira responsabilidade pelas características do filho, como se os filhos fossem uma folha em branco nos quais os pais deixassem suas escritas.

Em famílias ampliadas, aquelas que convivem de perto com avós ou tias da criança, é comum um desses membros exercer esse papel acusador dos pais.

Também não é raro os pais não se darem conta das características do TDA/H, ou então só as perceberem quando, na escola, a criança mostra repetidas dificuldades seja no aspecto cognitivo, seja no comportamento. Ou então só um dos pais percebe o problema, o que gera uma seqüência de conflitos entre o casal com respeito à opinião sobre a adequação ou não do comportamento do filho ou filha. Nessas situações o mais comum é que o pai que não percebe o problema é exatamente aquele que também apresenta características de TDA/H e que geralmente não foi identificado até o momento.

No consultório é freqüente ouvirmos então esse pai dizer mais ou menos assim: “Isso não é nada de anormal, pois na idade dele eu era exatamente dessa maneira”. É verdade, no sentido que os dois apresentam as mesmas características do TDA/H, e não é por causa dessa semelhança que a gente pode deduzir que nada existe e que não mereça uma intervenção. Nesses momentos, é importante investigar com delicadeza de que maneira essas características do pai afetado o prejudicaram ao longo de sua vida escolar, de relacionamentos, e profissional.

Uma situação nada fácil de abordar é quando os pais estão separados e existe uma nítida disputa de opiniões estando a criança no epicentro desse terremoto. Muitas vezes um dos pais deseja o tratamento e o outro se opõe radicalmente a qualquer tipo de intervenção, especialmente medicamentos. Se possível, deve-se explicar a cada pai, muitas vezes em separado, as conseqüências do não tratamento, ou seja, como o futuro do filho pode depender da decisão que tomarem em relação a intervirem ou não no TDA/H.

Também não é sem importância a atitude dos familiares próximos quando estamos diante de um adulto com TDA/H. Quando o marido ou esposa do paciente identificado não concorda absolutamente com a intervenção isso pode ser uma barreira intransponível para o tratamento. Por outro lado, quando os dois se unem para enfrentar o TDA/H de um deles, o paciente tem um aliado sempre por perto, capaz de ajudar no estabelecimento das estratégias e condutas compensadoras.

Existem casos de adultos que têm pouca consciência ou critica dos seus sinais de TDA/H. Aí é fundamental o papel do cônjuge para sinalizar se houve melhora ou não do quadro, pois o próprio cliente não é capaz de se avaliar com objetividade.

De tudo o que foi visto, podemos deduzir que é tarefa fundamental no tratamento do TDA/H a abordagem paciente e constante da família, e que devemos sempre procurar estabelecer contato e um bom elo com as pessoas próximas daquela que está sendo tratada, ajudando-as a terem uma visão mais objetiva possível do transtorno com o qual afinal todos da família têm de conviver.

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