Problemas na condução de veículos

Impressionados pelos comentários feitos espontaneamente por pacientes e por seus cônjuges com respeito ao efeito benéfico do tratamento com estimulantes sobre a maneira de dirigir, os autores se encorajaram a pesquisar a literatura sobre o problema da condução de veículos.

A literatura psiquiátrica e o problema da direção:

A literatura menciona uma forte associação entre o TDA/H e a maneira de dirigir veículos.

Estudos mostraram que as pessoas hiperativas que receberam medicação durante a infância tiveram 50% menos acidentes que as pessoas hiperativas que não se submeteram a esse tipo de tratamento.

Em 1991 o Departamento de Transporte das Rodovias Federais dos EUA reconheceu o TDA/H como um transtorno psiquiátrico que representava um risco potencialmente importante em relação aos problemas de condução de veículos.

Num trabalho de 1993, Barkley et al. concluíram que pessoas com TDA/H tiveram 4 vezes mais acidentes de veículos motorizados, sofreram 4 vezes mais lesões devido a batidas, receberam 4 vezes mais multas de trânsito, e o dirigir sem licença foi 6 vezes mais comum entre elas.

Os jovens que, além do TDA/H, apresentavam sintomas de Transtorno de Desafio-Oposição e Transtorno de Conduta constituíam o grupo de maior risco.
Os autores compararam um grupo de pessoas com TDA/H com outro grupo de pessoas com transtornos afetivos, e verificaram que o problema de direção era específico do primeiro grupo.

A conclusão a que chegaram é que o TDA/H não interfere no conhecimento de como dirigir, mas sim na exata execução durante a operação do veículo, ou seja, no controle motor.

Um achado curioso é que as mulheres com TDA/H relataram mais acidentes de carros que os homens.

Função executiva e problema na condução de veículos:

Barkley (1997) desenvolveu uma teoria para explicar os déficits cognitivos das funções executivas do TDA/H. Seu modelo teórico associa a inibição a 4 funções neuropsicológicas: memória operacional, auto-regulação dos afetos/motivação/estimulação, internalização da fala, e a reconstituição (análise e síntese do comportamento).

Segundo a teoria proposta por Barkley essas funções exercem controle sobre o comportamento, permitindo uma maior auto-regulação, uma orientação dirigida ao futuro, e um autocontrole da emoção e da motivação.
Déficits nessas funções executivas podem prejudicar capacidades essenciais para uma direção segura, tais como, o planejamento antecipado, a flexibilidade no controle da aceleração e do freio, a modulação da expressão emocional e da excitação em situações estressantes e em situações imprevistas.

Pode-se entender que déficits na inibição adequada podem ser a causa do dirigir com velocidade, da dificuldade de previsão das condições da estrada, do atraso no frear, e da hiper-reatividade emocional (a denominada “road rage”).

Estudos de outros autores também mostraram que os motoristas problemáticos eram aqueles que revelavam altos índices de impulsividade.

Literatura sobre Adultos e Problemas de Direção:

Diversos estudos examinaram adultos que se envolviam em acidentes de trânsito. Num deles, Tillman e Hobbs compararam motoristas com mais de 4 acidentes com outros motoristas que nunca tinham tido acidente.

Concluíram que os primeiros eram mais agressivos, impulsivos, ressentidos com a autoridade, e careciam de responsabilidade social. Arremataram, dizendo que “o homem dirige da mesma forma que ele vive”.

Outros autores assinalaram, nos motoristas com tendência a acidentes, os traços de personalidade de agressividade, impulsividade e atitudes anti-sociais.

Teoria Psicossocial do Comportamento Problemático:

Alguns teóricos do comportamento procuraram descrever determinados modelos de aprendizado psicossocial para explicar certos comportamentos desviantes.

Dentro dessa orientação alguns estudos tentaram demonstrar que a diferença de comportamento entre jovens envolvidos em colisões de veículos e outros jovens não envolvidos em acidentes desse tipo já poderia ser percebida anos antes da ocorrência da colisão.

Os traços observados foram: uma maior atitude de busca de emoção e aventura, uma maior tolerância ao desvio, e uma postura mais liberal quanto ao uso de álcool. Também foram citados: a existência anterior de multas de trânsito, ter escapado por pouco de uma colisão, e apresentar características de dirigir perigosamente.

Com relação à experiência de dirigir, foi encontrado que um pouco de experiência pode ser algo perigoso para motoristas novos, capaz de gerar excesso de confiança e um dirigir com risco.

Infratores percebiam a si próprios como evidenciando maior grau de irritabilidade com os outros.

O uso de álcool e o dirigir problemático:

A grande maioria da literatura sobre os problemas do trânsito faz comumente associação com o uso do álcool. Sabe-se que o álcool prejudica a atividade dos centros corticais e compromete as funções executivas. A pessoa alcoolizada se torna mais desinibida e impulsiva.

Todavia, um relatório da Administração Nacional da Segurança do Trânsito nas Rodovias, em 1994, assinalou que 70% dos acidentes fatais foram mais devidos a erros de jovens motoristas do que propriamente ao uso de álcool.

A literatura psiquiátrica menciona que o abuso de drogas ocorre em aproximadamente 15% de uma amostra clinica de adolescentes. O impacto no curso do abuso de drogas é muito mais grave entre pessoas com TDA/H. Estudos revelaram que o inicio do uso de drogas ou álcool foi mais precoce na população TDA/H, e que pessoas com TDA/H têm muito mais dificuldade de sustar o comportamento de dependência.

A estrada pela frente:

O que tudo acima nos faz pensar é que o TDA/H é um importante fator de risco com relação a problemas na direção.

Uma vez que as pessoas com TDA/H são impulsivas, e visto que o dirigir requer muito autocontrole, é fácil entender a tendência dessas pessoas para acidentes.

A deficiência do autocontrole, qualquer que seja sua origem, está na raiz nos hábitos perigosos de dirigir.

Sabidamente as crianças com TDA/H freqüentemente sofrem acidentes, como batidas com a cabeça, fraturas, queimaduras, perda de dentes, envenenamentos acidentais, etc. E possivelmente o fio que une todos esses fatos é a impulsividade.

Para finalizar, cabe lembrar que a principal causa de morte em adultos jovens do sexo masculino são os acidentes com veículos motorizados…

Executive Function and Problem Driving – Laurence Jerome and Al Segal (ADHD Report, April 2000.)

Esta entrada foi publicada em Sem categoria. Adicione o link permanente aos seus favoritos.