Segurando a Hiperatividade

Depois de seis anos de casamento decidi ter um filho. A gravidez transcorreu sem anormalidades dignas de nota. O parto foi normal. Tudo evoluía a contento até o dia em que ele andou, pois imediatamente começou a correr e a desestruturar toda a família. Apenas quem tem um hiperativo no seio do seu lar pode compreender o pandemônio em que se transforma a casa. A agitação toma conta do ambiente que fica inteira e completamente caótico. Até os pensamentos ficam acelerados, tentando seguir o ritmo da música dado pelo hiperativo. Recomenda-se calma, equilíbrio, fala mansa, música suave. Mas até o mais sensato monge tibetano não consegue manter-se desacelerado, pois a criança hiperativa é um furacão que corre, sobe, desce, se acidenta, quebra coisas, e traz o alvoroço por onde passa. A situação na qual me vi metida, não tinha tempo para terminar. Então fui buscar recurso externo, e aos dois anos e seis meses eu procurei e o levei a sua primeira psicóloga. O tratamento durou um ano e foi feito através da ludoterapia, que usava brinquedos, e bonecos de pano que representavam as pessoas da família. Assim dessa forma, poderíamos ficar sabendo o que se passava na mente daquele menino de menos de três anos que não parava um segundo sequer.
Aos três anos foi para a escola. Não conseguia acompanhar as atividades desenvolvidas. Circulava o tempo todo. Percebíamos que havia algo de anormal, pois com o passar do tempo e o amadurecimento, as crianças vão ficando mais comportadas, o que não ocorre com o hiperativo que age como se a vida escolar fosse um eterno recreio.Outra coisa que já chama a atenção, é que numa brincadeira em grupo há o espírito de cooperação, mas o meu filho apenas atrapalhava a brincadeira. Além de não conseguir ficar sentado, ele não permanecia dentro da sala de aulas. Logo no começo eu fui à escola pedir uma atenção maior sobre ele, e dizia que ele fazia acompanhamento psicológico. Não havia um diagnóstico.

Aos três anos e cinco meses ele começou a ler repentinamente, quando ninguém o havia ensinado uma letra que fosse, e nem havia ninguém aprendendo a ler, por perto.

Aos quatro anos, mudamos de bairro e de escola. Permanecia da mesma maneira: inquieto, acelerado, desatento, machucando-se com muita freqüência. Comportava-se na escola exatamente como em casa. Nenhuma autoridade foi capaz de mudar-lhe o comportamento. O fato de ser muito alegre, educado e beijoqueiro, fazia com que as pessoas adultas gostassem dele, mas não as crianças, que o antipatizavam. Tinha um atraso motor acentuado, e coisas rotineiras como se vestir eram um problema. As minhas idas a escola tornaram-se indispensáveis, para tentar adequá-lo ao sistema. Notávamos que havia alguma coisa errada, mas não sabíamos o que era. Participei de todas as reuniões de pais e mestres e de todas as festas. Via e falava com a professora (foi mudada quatro vezes durante esse ano, o que torna delicada a situação dos alunos), como também com a orientadora. Nunca me foi reclamado nada, e nem comentada nenhuma anormalidade. Mas no dia em que fiz a matrícula para o segundo período, que foi aceita, e eu já estava no estacionamento, encontro com a diretora. Esta manda a orientadora vir correndo me avisar que a escola não ia aceitar a matrícula, pois as mães dos outros alunos reclamavam que o meu filho atrapalhava as aulas.

O caos amplificou-se. A ludoterapia já tinha sido suspensa por orientação da psicóloga. Nessa mesma época estava sendo promulgada a constituição de 1988, na qual reza que todo o cidadão é igual perante a escola e a sociedade. Mas o meu filho estava expulso do convívio social. Outra escola foi tentada, mas a diretora, após ouvir o meu relato, negou a vaga, pois alegou não ter estrutura para ter um menino especial.

O diagnóstico tinha chegado recentemente, com o nome de Disfunção Cerebral Mínima. A suspeita foi levantada por um pediatra que nos enviou a Belo Horizonte, onde um neuropediatra tratava muitos casos como este. Tínhamos um nome de doença, mas não tínhamos uma escola. Foi iniciada a psicomotricidade para vencer o atraso motor, assim como a natação e o judô.

Então, aos cinco anos, ele foi aceito no Colégio Promove. Intensificamos, o pai dele e eu, os nossos contatos diários com a psicóloga escolar, a professora, os colegas, e até os pais de alguns alunos. Não sabíamos exatamente o que fazer, pois ainda não conseguia manter-se sentado e nem mesmo dentro da sala de aulas. Perdia objetos diariamente, e mesmo com a ajuda da professora e dos colegas, eu o encontrava ao final das aulas, sem a camisa, sem os sapatos, apenas de calção, com a mochila vazia e os materiais escolares fora dos limites da sala de aulas. Catava o que encontrava e íamos repor tudo em casa. Instituímos um caderno onde a professora anotaria algum fato importante. Esse caderno o acompanhou durante muitos anos. Era muito desmazelado com tudo e os cadernos ficavam aos pedaços. Não conseguia desenhar como os outros colegas.

O pré-primário foi muito desinteressante para ele, pois já sabia ler há tempos e tinha o hábito de ler revistas em quadrinhos. Mas a imaturidade mental e motora o impediam de ir adiante. Enquanto os colegas aprendiam os fonemas, ele ficava algum tempo na sala de aulas e outro tempo andando pela escola. Chegou a fugir mais de uma vez.Até essa época tinha uma babá colada nele o tempo todo, principalmente para evitar acidentes. Aos seis anos a dispensamos.

A primeira série iniciou-se, mas o problema permanecia. Era amoroso, e não respondia a ninguém com grosseria, mas não conseguia obedecer. Destruía todo o material, perdia tudo, e apesar de estar melhor na motricidade fina, tinha muitas dificuldades. Desistimos do judô porque não ficava perto da aula, mas correndo pelo pátio. O pai ensinava-lhe os deveres todos os dias, durante um tempo enorme da noite, bem mais do que seria razoável, porque não conseguia permanecer sentado e escrevia uma palavra e saia para dar uma volta.

As outras três séries transcorreram no mesmo ritmo. Uma professora só, centralizava tudo, e assim podíamos através dela tentar segurar o meu filho. Apanhava na escola todos os dias, mesmo com as colegas meninas e a professora protegendo-o, os meninos o feriam, principalmente no rosto.

Mantivemos a natação e a psicomotricidade por cinco anos ininterruptos, e apenas aos dez anos foram suspensas. Então começou a quinta série, ocasião de muitos professores. O nosso mundo acabou de ruir. Ficou tudo mais difícil. Mesmo assim eu ia a escola leva-lo todos os dias e falava sempre com os professores. Tentava explicar-lhes sobre as nossas dificuldades, pedíamos maior atenção e tolerância, colocá-lo na frente, ver se estava copiando os deveres (dissimulava e não fazia nada). As notas que antes eram razoáveis, agora estavam ruins. Estava muito defasado em termos de letra e muito imaturo. Houve uma piora geral. Já era impossível um caderno de bilhetes, mas mesmo assim tentávamos manter o contato.

Foi levado diversas vezes a Belo Horizonte para ser consultado pelo neuropediatra. Foram experimentados três ou quatro tipos de medicamentos para organiza-lo e desacelera-lo, mas de nada adiantaram, e foram abandonados em pouco tempo.Sempre era dito que ele não avançaria nos estudos devido à desatenção e que na puberdade tenderia a reduzir a hiperatividade. O risco de abuso de drogas e voltar-se para a marginalidade também eram possibilidades preocupantes.

Aos doze anos foi para a sexta série, e iniciamos com a professora particular. Pouco a pouco a desatenção foi mantendo-se enquanto a hiperatividade foi cedendo parcialmente. Nessa época já jogava videogame e saia à rua, porém perto de casa com a nossa permissão e vigilância. Só estudava na presença da professora particular que o acompanhou por duas a três horas por dia, na casa dela durante três anos. Teve desde cedo aulas particulares de inglês que duraram quatro anos e depois fez cursos em turmas regulares em três escolas diferentes.

Já rapaz, e com quinze anos iniciou o ensino médio. Para tentar amadurece-lo, decidimos suspender as aulas particulares, mas foi um erro, pois redundou numa desaprovação. Na repetência e depois dela, as idas minhas e do pai a escola eram freqüentes, mas o rendimento escolar era muito baixo mesmo. Nessa fase a desatenção era a característica mais marcante, além da imaturidade, e a inobservância de regras.

Reiniciamos com a professora particular que lecionava em cursinho, e ia a nossa casa. Ele só estudava e fazia deveres na presença dela, que lá permanecia cerca de 3 horas por dia. Assim de recuperação em recuperação conseguiu terminar o ensino médio. No final do ano letivo, participou de um vestibular simulado, contra a sua vontade, pois tinha aversão a palavra vestibular e fez 70% das provas. E sem colar, pois sempre abominou essa prática. Assim ficou mais confiante e fez o vestibular das Faculdades Pitágoras para Turismo e Hotelaria. Cursou cinco semestres e como não poderia deixar de ser, mudou agora para Design.

Hoje o meu filho tem 21 anos, e inicia um novo curso. Como da outra vez, está muito animado e estimulado com a novidade. Tem as suas inquietudes e as suas buscas. Toca violão razoavelmente bem e ainda tem aulas, desenha e cria personagens, escrevendo roteiros e livros inteiros, cozinha bem (fez diversos cursos de gastronomia), faz origamis (dobraduras japonesas) de forma exímia. É muito carinhoso e atencioso, distribui beijos a granel, faz musculação, joga videogame muito bem, é responsável com dinheiro, gosta de política e é muito bem informado. Faz terapia comportamental, fica ligado na Internet e na TV a cabo de forma simultânea durante boa parte do dia. Está menos acelerado, mas a desatenção e a impulsividade ainda lhe trazem prejuízos.É muito solitário não tem amigos e nem namorada. Mas não me parece interessado em mudar essa situação.

Quando o problema mudou de nome e passou a chamar-se Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, eu o achei bem abrangente, menos discriminatório, sendo, no entanto, ainda pouco conhecido. Assim escrevi um livro contando as nossas lutas e consegui uma participação num curso de Escola Inclusiva para Educadores. Essas minhas atitudes visam fazer um alerta da importância da escola na vida dessas pessoas e também mostrar como uma boa comunicação das partes pode minorar os efeitos dessa grave alteração.Colocar a minha cara na rua através do meu livro depoimento, também é uma maneira de esclarecer a população e mostrar que um transtorno emocional é tão humano quanto um transtorno orgânico. Então porque escondê-lo?

Agosto 2005
Mara Narciso é médica e mãe. É autora do livro Segurando a Hiperatividade. Veja na seção Livros.

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